Sábado, Abril 27, 2013
- o carteiro -
olá minha alminhas, meus filhinhos. desculpem esta verborreia, mas estou a acabar de ler "O crime do padre amaro" e fiquei contagiada pelos termos ternos. cá estamos nós, mais uma vez para um speculumzinho bem gostôso, tá ligado? ora bem os episódios de hoje são: Maria Madalena a lavar os pés a Jesus, Manassés em penitência, o regresso do filho pródigo e David a afirmar o seu pecado. Os três últimos episódios prefiguram a cena do Novo testamento de Madalena a lavar os pés de jesus com as suas lágrimas de penitência e enxugá-los com o seu cabelo. Ora antes de mais convém referir uma coisa: no todo, na sua génese, os episódios do Novo Testamento deveriam ser antecedidos ou acompanhados por episódios do Antigo Testamento que fariam uma antevisão da primeira cena. O que se passa é que nem sempre a um episódio do N.T. correspondem 3 do A.T. É o que acontece hoje: o episódio de Maria Madalena a lavar os pés de Jesus é a cena chave. A antecederem-na o Speculum avança 3 cenas, mas a segunda não é do A.T. Vamos então ao primeiro episódio: Maria Madalena. Este surge em Lucas 7:37-38: "E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento." Este episódio vem no seguimento da ressurreição do filho de uma viúva por parte de jesus, numa cidade vizinha que por sua vez dá origem a que o fariseu Simão deseje conhecer este homem. Convida então Jesus para tomar uma refeição com ele. No entanto ao entrar em casa de Simão Jesus não recebe a atenção que geralmente era dada aos convidados, como a lavagem dos pés dos mesmos, feito pelo dono da casa. Durante a refeição entra na sala uma mulher que não havia sido convidada e que era conhecida por ser uma pecadora. Mas é esta pecadora que se ajoelha aos pés de Jesus, que os lava com as suas lágrimas e os seca com os cabelos. Também coloca óleo perfumado nos pés de Jesus e beija-os. É importante referir que há várias Marias na Bíblia e vários episódios com Marias a lavar os pés de Jesus, ou de pecadoras que se aproximam dele, ou mulheres que lhe ungem os pés. Adoptámos aqui o nome Maria Madalena pois apesar de ele não se encontrar no Evangelho de Lucas é a denominação que tem no Speculum. Esta reação de Madalena é uma reação de penitência, de arrependimento e são esses os termos que dão o mote aos episódios do Antigo Testamento que anunciam este episódio de Cristo.

Uma dessas cenas é a de Manassés, presente em II Crónicas 33: 11-12: "Assim o Senhor trouxe sobre eles os capitães do exército do rei da Assíria, os quais prenderam a Manassés com ganchos e, amarrando-o com cadeias, o levaram para Babilónia. E ele, angustiado, orou deveras ao Senhor seu Deus, e humilhou-se muito perante o Deus de seus pais" Manassés foi um rei da Judeia que errou ao erguer inúmeros altares a outros deuses que não Senhor. Deus enviou-lhe então como castigo o exército do rei da Assíria para o prender e para o levar para a Babilónia como prisioneiro. Foi aí que ele se arrependeu, penitenciou-se e rezou a Deus. Ora, tal como Maria Madalena se arrepende das suas faltas e lava os pés de Jesus, num sinal de humildade, também Manassés se arrependeu de não ter acreditado em Deus logo. Pensam vocês: "mas há outras situações de arrependimento na Bíblia". Há, mas o Speculum estabelece a relação entre estas. E se um dia se depararem com estas imagens: Maria Madalena a lavar e enxugar os pés de Jesus, Manassés a ser preso, David a arrepender-se do seu pecado e o regresso do filho pródigo, ficam a saber de que se trata. Claro que no Speculum há relações entre as cenas do Antigo Testamento e a do Novo Testamento que são mais difíceis de estabelecer, mas para isso é que estamos cá.

Da mesma forma, o filho gastador que se arrepende volta para casa do pai e este recebe-o com os braços abertos uma vez que é com grande alegria que vê o filho voltar e voltar com a consciência de que havia errado. A alegria é tanta que ele manda matar um animal e ordena que este filho mais novo que estava perdido seja vestido com as melhores vestes. Diz Lucas 15: 11-22: "E disse: Um certo homem tinha dois filhos; E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés". Notem que o quadro de Rembrandt relativo a este tema, o pai pousa as mãos nos ombros do filho e estas são diferentes. Uma delas é mais suave como se fosse uma mão feminina, o que quer dizer que este pai é pai e mãe simultaneamente. Esta segunda cena, que deveria ser uma prefiguração não confirma isso já que o regresso do filho pródigo pode ser encontrado no Evangelho de São Lucas; ou seja, Novo Testamento.

Rembrandt
The Return of the Prodigal Son
1663-1665
Hermitage Museum

E com esta me vou. beijinhos e até um dia destes.
The Return of the Prodigal Son
1663-1665
Hermitage Museum
O último episódio do Antigo Testamento que antevê o que se passou com Maria Madalena e Jesus é o do rei David. Nele se mostra como David arrependido é perdoado por Deus através de Natã. Diz II Samuel XII, 13, a propósito de uma parábola que Natã diz a David: "Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás." David arrepende-se, o filho pródigo arrepende-se, Manassés arrepende-se e tudo isto em livros do Antigo Testamento; ou seja, todas estas formas de arrependimento nos alertam para o arrependimento de Madalena pecadora que virá já no Novo Testamento, após o nascimento de Cristo.

E com esta me vou. beijinhos e até um dia destes.
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
"antes e depois" ou "mais uma corrida, mais uma viagem". a segunda imagem, como sabem, é de uma produção do fotógrafo Michael Sanders para a Face de 1997. A jovem modelo é que não sei quem é. Quanto à pintura, pensa-se que é o painel esquerdo de um tríptico. Apesar de ser só um retrato, há muito a dizer pois este tipo de retratos só podia ser concebido na Flandres. Já dissemos aqui que a pintura do século XV no Norte da Europa e no Sul era bastante diferente. A pintura do Sul da Europa ainda não tinha descoberto, ou não queria usar, o óleo que, como tinha um tempo de secagem mais longo, permitia retoques, gradações de cor e velaturas. Isto acontecia no Norte da Europa que pintava a óleo, e sobre madeira. No Sul preferia-se o fresco e as temáticas religiosas. No Norte, evitava-se a representação de anjos e santos, bem como de temática religiosa. Como se acreditava na Teoria da Predestinação que dizia que o sucesso ou fracasso de um homem era definido por Deus, eram também as cenas de sucesso no trabalho que eram mais representadas. Daí o grande número de cenas em oficinas, em casas de câmbio e de retratos de mercadores. Estes retratos, e isso é o que interessa para este post, eram também diferentes dos retratos italianos. Estes eram a 3/4, de meio corpo, frente a um balcão ou a um parapeito e não eram nada idealizados. Tinham todos os traços identificadores do retratado, com todos os pormenores mais e os menos lisonjeiros. Já em Itália, porque havia uma grande tradição da medalhística e da numismática da Antiguidade, os retratos eram de perfil, sem traços individualizadores e geralmente com paisagem por fundo, paisagem essa idealizada. Pronto, e com esta me vou. tenho andado um bocado jururu, não sei bem porquê. por isso é natural que a produção não esteja nada de especial.

Hans Memling
Young Man at Prayer
c. 1475
National Gallery, Londres

Michael Sanders
1997
Face
- não vai mais vinho para essa mesa -
[no psiquiatra]
- mas não acha que se sente agora melhor do que antes? eu acho que está melhor agora.
- mas não me sinto melhor..
[uma lágrima cai-me pela cara abaixo]
- merda! nem sei porque é que estou a chorar. quando eu me sentia mal antes, sabia porque é que era. sabia que me sentia triste porque fechava o mundo à minha volta. agora abro frinchas e só me sinto ridícula. era suposto estar feliz por estar a fazer o que gosto, mas só me sinto um fracasso. ou então, enfadada.
- ....
-.....
-....
- era a sua deixa.
- espere aí, deixe-me pensar...
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
"isso também eu fazia"
"fazias, mas não fizeste!"
A primeira frase/expressão é muito ouvida, seja no que for. aposto que foi isso que disse o primeiro tipo que viu o ovo de colombo direitinho. relembro-a a propósito de um conjunto de conferências dedicadas à arte contemporânea a que assisti. assistir é o termo certo, nem mais nem menos. anoto, faço perguntas, venho de lá com muitas ideias, mas não consigo assentar nenhuma. por isso escrevo este post.
uma das grandes questões da arte contemporânea, talvez a maior é "o que é que é arte hoje?". A arte hoje padece de um problema que somos nós (não sei se a frase está bem escrita por causa da concordância, mas adiante). Nós tentamos perceber a arte de hoje, tentamos nomeá-la, qualificá-la e isso quase sempre corre mal pois, conforme se sabe, ninguém é bom advogado em causa própria; ou seja, a coisa redunda ou na subestimação da arte actual, ou na sua valorização incondicional. Mais, a arte de hoje está muito mais próxima de nós, é mais fácil termos acesso a ela, o que nos dá a entender que temos de ter sobre ela uma opinião, quando na verdade o que nos dá essa sensação é o mediatismo a que tudo hoje está sujeito. um exemplo é um repórter com um microfone na rua: qualquer pessoa se aproxima tal é a tentação de dizer ante o país o que acha. há um outro nós: o nós artístico que produz e que atenua as fronteiras entre a arte, o artesanato, o design, a performance, etc. e parece-me bem. acho que quando o caravaggio desenhava com os seus modelos não ficava a pensar: "calma aí, será isto pintura, teatro ou o "um dois três macaquinho de chinês"?. Quer isto dizer que quem está no meio tem capacidade para ver para além do meio.
Para além do nós, existe um outro problema: o tempo. O tempo suavizou as clivagens que a pintura foi criando. O que é pintura? Pincel, óleo, tela? Ou também pode ser a inclusão de outros materiais, o uso dos dedos, a trincha, a parede em vez da tela, o chão em vez da parede...? Inicialmente a pintura era o tradicional: pincel, óleo/têmpera, tela/painel. Mas cada vez mais nos habituamos a encarar como pintura o que possa incluir outros meios e nem é menos pintura se não for figurativo. Embora, e segundo as nossas mentes formatadas, uma pintura é melhor quanto mais "normal" (!) for. Quanto à escultura, também houve uma modificação no pensamento. Hoje a escultura não é só o trabalho figurativo em bronze, marfim, mármore, mas pode ser a simples incisão numa placa de madeira, ou um espaço (site specific). Custa a admitir, mas acredito que mais cedo ou mais tarde a escultura também achará o seu lugar de forma pacífica (o que para dizer a verdade, nem sei se é bom ou mau). Mas relativamente à joalharia, o caminho a percorrer é longo. Começa logo pela denominação que nos traz à ideia diademas e coroas reais, pedras preciosas, ouro e um trabalho minucioso. A joalharia contemporânea destrói todas essas formatações: usa materiais que não são nobres, materiais perecíveis, usa da mesma forma a produção em série e a produção de um exemplar único...
É a altura em que se pergunta, na joalharia como na moda, ou como na arquitetura - ou na pintura e na escultura, ainda que cada vez menos pois estas duas áreas têm granjeado ao longo do tempo um grande apoio da política, da economia (a arte move algumas economias como a italiana, por exemplo), do cinema, da religião, dos meios de comunicação social (a guerra no egipto e o roubo/destruição de peças) - é então a altura em que se diz "mas isso é arte?". na minha opinião, bem como na de outras pessoas, por mais que nos custe, temos de ver que os paradigmas mudaram e o que se procura, hoje como sempre, é que a arte seja feita, através de que materiais e técnicas, segundo um pensamento dirigido para nos transmitir sensações de volume, de fantasia, de brilho, de cor, de reflexo, de temperatura, etc. e que se assim for, é arte. mas se não for assim, se a junção de materiais através de determinadas técnicas for casual, também há a grande possibilidade de ser arte. nesse caso, ao observarmos o objeto artístico, teríamos de dizer não "isso também eu fazia", mas antes isso foi o que ele/ela, desejaram fazer com a formação que tinham e que continua a ser, na maior parte dos casos uma formação de origem clássica. por muito que nos custe, já não basta entrar nos museus, ver e vir embora. é necessário estudar, é necessário ler, é necessário procurar informação. a arte contemporânea exige isso de nós e com toda a razão. Assim como não esperamos compreender um teorema só ao olhar para ele, também não podemos exigir isso da arte.
beijinhos grandes e repenicados. até amanhã, vou dormir.
Quarta-feira, Abril 10, 2013
- original soundtrack -
A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
A tua presença
Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença
É branca verde, vermelha azul e amarela
A tua presença
É negra, negra, negra
Negra, negra, negra
Negra, negra, negra
A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
A tua presença
É tudo que se come, tudo que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza
A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
Morena, morena, morena
Morena, morena, morena
Morena
(A tua presença, Caetano Veloso)
- não vai mais vinho para essa mesa -
[da coerência]
jornalista - portanto não está disponível para algum acordo com o governo para ultrapassar este buraco que agora se avizinha?
António José Seguro - eu estou disponível para substituir o governo.
jornalista - e como é que se vai substituir estes mil e duzentos milhões de euros?
António José Seguro - quem cometeu o erro e quem criou o problema que o resolva.
- o carteiro -
um destes dias passei pela célia. a célia era uma rapariga gorducha e baixinha, com o cabelo loiro liso pelos ombros e dentes afastados à frente, mãos sapudas e vermelhas, moradora orgulhosa do bairro de são joão de deus que conheci no hospital. nunca percebi porque é que ela estava internada em psiquiatria. ela dizia-me que tinha "muitos nerbos". quando lhe disse que tinha 30kgs e que, não fosse o internamento, chegaria ao 25kgs ela disse que compreendia porque às vezes também se sentia assim e não comia nadinha.que de tão afrontada tinha de desapertar o soutien. eu achei que no fundo era diferente, mas calei-me.
a célia foi a minha madalena no chá. lembrei-me da dona branca no serviço de psiquiatria: era uma senhora que aparentava ter mais idade do que aquela que tinha efetivamente. trajava negro todos os dias, usava coque e bordava de pé, a um canto. e depois mostrava a toda a gente o que tinha bordado. dava passos pequenos e expeditos, embora no corredor do serviço de psiquiatria se há coisa que não adianta é dar passos rápidos: o corredor é tão curto que logo logo se entra na ala masculina. quando perguntei o que tinha a dona branca disseram-me que lhe tinha morrido um filho. a minha cabeça completou de várias formas o resto. também havia uma outra dona: a dona alice. a dona alice era uma senhora de idade que comia na mesma mesa que eu - quer dizer, eu comia na mesma mesa que ela. tinha cabelo branco despenteado, óculos de fundo de garrafa que fazia com que os olhos ficassem muito pequeninos, os dentes todos tortos e péssimo hálito. quando cheguei lá, a dona alice era autónoma... mas depois, não sei. passaram-se várias semanas e nunca vi lá a família em visitas. nem a médica. quando saí após um mês a dona alice estava de fraldas, não comia e não falava. as enfermeiras também não lhe ligavam grande coisa. numa camarata de 16, sem divisões, é difícil uma pessoa não perceber que alguém está ali para morrer. mas havia outras pessoas. havia uma gabriela, que entrou já depois de mim e que numa noite me levou para o refeitório. deu-me as mãos e disse que o Senhor estava comigo. por mim tudo bem, desde que ele não se pesasse ao mesmo tempo que eu. depois colocou-me a mão na cabeça e tentou "salvar-me", mas segundo ela eu estava a fazer força para não ir para trás. "fuck", pensei. mas reconsiderei. se havia sítio onde aquilo podia acontecer, era ali! pensei que ela ficasse aborrecida comigo por eu não deixar que o Senhor se manifestasse, mas não, nada disso. uns dias depois vi que ela dormia com a bíblia sob a almofada. lembro-me do arménio. era um tipo que em todas as refeições arranjava sarilhos. que a comida não prestava, que queria leite em vez de iogurte, que queria fruta em vez de bolachas, que estava de frente quando queria estar de costas. um dia disse-lhe para ele se sentar na minha mesa. depois de pousar o tabuleiro e sentar-se disse-me "eles vêm atrás de mim". "quem", perguntei. "os médicos e os enfermeiros. eles não querem deixar-me ir para a minha mãe". O arménio era esquizofrénico, não comia de faca e sempre que via o elevador com o carrinho das refeições aberto, esgueirava-se e fugia. já ninguém corria para apanhá-lo porque o arménio nunca se afastava muito. na noite em que entrei vi uma cena que me deixou cheia de medo e a pensar "caramba, isto é mesmo como nos filmes!" ouvi berros e arrastar de mesas no refeitório. de seguida entraram lá quatro enfermeiros, um deles com uma senhora seringa! mais gritos e depois o silêncio. a porta abriu-se e os quatro médicos saíram a carregar uma rapariga, ainda com a seringa no braço, para a cama onde dormiu um sono justo e longo. sonos longos era coisa que não tinha. aí por volta das 3h da manhã acordava com o barulho de água a correr do lavatório que ficava frente à minha cama na camarata. é que a essa hora, uma senhora que passava o dia tricotar meias de lã para o marido lavava as mesmas ali. para ela, era uma hora tão boa quanto qualquer outra. para mim era qualquer coisa pessoal que ela tinha contra pessoas que, ao contrário dela, não estavam ali a salivar pela refeição. lembro-me também da paula, uma rapariga que andava sempre fortemente medicada. arrastava as palavras e dizia, com os olhos fechados, que me conhecia desde pequenina. como dizer que não a alguém que não nos vê? também havia um caso curioso. o de uma rapariga negra retinta que não comia carne. quando havia visitas - em psiquiatria aconselhava-se que os doentes não se afastassem muito da sala de visitas - o pai levava-lhe, num saco de plástico, um tacho com arroz que ela comia ali, a que horas fosse, e de colher. essa rapariga fazia xixi na cama todas as noites. acho que ela já nem tinha o que vestir. uma noite, vi uma mulher a andar nua na camarata. uma das luzes estava acesa e a enfermeira falava com a mulher nua, nova na camarata. tinha chegado essa noite, não tinha o que vestir e mordia os lábios. nunca soube muito bem o que é que tinha. na minha cabeça era prostituta. claro que não lhe perguntei "então, a como estão os felacios?" mas também nunca desfiz esta minha ideia. lembro-me da colômbia, uma rapariga/senhora morena de cabelo negro que os pais evitavam visitar. a última vez que a vi foi numa fotografia no jornal de notícias, na página de necrologia. tinha-se suicidado.
- ars longa, vita brevis -
hipócrates
antes e depois ou como uma pintura de Manet me fez voltar a Proust. é verdade, voltei a ler a Recherche (dizer Recherche é mesmo estar a pedir para ser taxada de pedante). estou a ler devagar, a apontar tudo o que me interessa e acima de tudo a fazer esquemas para ver se não me escapam os cenários e as personagens, bem como as relações entre elas. o Proust veio a propósito de um trabalho onde relaciono algumas pinturas com o círculo de amigos e conhecidos do escritor que serviram de base à criação de personagens. lembro-me de ter postado aqui uma coisinha sobre a presença de Charles Ephrussi no Dejeuner sur l'herbe do Manet. Este Ephrussi era um judeu rico e terá servido de inspiração a Proust para a construção de Swann, um amante de arte, um coleccionador, com boas relações na sociedade da época, mas que vive oprimido com um casamento com uma mundana - ainda que bela - que o priva de frequentar os salões dos seus amigos aristocratas que já não o convidam. Ora Ephrussi figura em alguns quadros dos Impressionistas como o Dejeuner do Manet ou o Dejeuner do Renoir. E há mesmo aquela história dos espargos. o que me anda a massacrar, é que não me lembro onde li que o senhor de cartola no quadro de Manet era Ephrussi. se alguém souber, por favor diga-me. outro dos modelos para Swann foi Charles Haas, um dandy judeu que estava presente nas mais altas esferas sociais. Tal como Swann que segundo Proust era um dos poucos judeus a frequentar o Jockey Club, também Haas era um dos poucos judeus a frequentar o Le Cercle de la Rue Royale do Tissot.
E aqui dou a volta à pescada e prendo-lhe o rabo na boca:
é que assim como Proust cria Swann, e Manet pinta Ephrussi, também Tissot pinta Haas. E assim como Manet pinta o Dejeuner, Tissot não lhe quis ficar atrás e pintou isto (um bocado a fugir para o azeiteiro, mas olhem, a quadro dado não se olha a velatura:

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Manet
Dejeuner sur l'herbe
1863
Musée d'Orsay, Paris

Tissot
La Partie Carrée
1870
Coleção Privada
- o carteiro -
[novas]
Bronies: The Extremely Unexpected Adult Fans of My Little Pony
Arrrgh! Monstres de mode
- não vai mais vinho para essa mesa -
sonhei que fui numa viagem de estudo a Santiago de Compostela e que à noite, não sei como, fui ter ao quarto do professor. entrei, fomos para o quarto dele e já lá estava outra professora. ele começou aos beijos com as duas. e eu disse: "então como é que é...?". ao que ele respondeu: "calma, as coisas não são preto e branco". e depois acordei. o que foi uma pena porque os beijos eram muito bons. eu sei que isto parece taradice, mas que eram bons... lá isso eram.
Quinta-feira, Março 28, 2013
Quarta-feira, Março 27, 2013
- o carteiro -
para tapar o outro post e para dar aquela ideia "ela é muito intelectual! coça a patilha e cofia o bigode! Até sabe onde fica o esternocleidomastoideo". e também para mostrar esta obra (é obra. não há que ter pruidos porque se trata de um papel branco sobre uma parede branca, como o Malevich, mas sem moldura). eu cá gostei. mais do que gostar, pareceu-me relevante. não se trata de fazer um "malechivismo", mas antes de quase não separar o trabalho, da parede em que se encontra exposta. os milímetros de espessura e o tom diferente da parede já a mostram e essa objetivação irónica faz dela (da obra) arte.
Richard Tuttle
8th paper octogonal
1970
Tate Modern, Londres
Domingo, Março 24, 2013
- não vai mais vinho para essa mesa -
um destes dias o paulo chegou junto de mim e disse: "toma. prá você!" (O paulo é brasileiro, convém ler com sotaque). pousou à minha frente três maços brancos identificados exteriormente por um cartão com o meu nome, email, número de telemóvel e endereço da revista online para a qual escrevo. Lá dentro estavam 300 cartões como este:

e nesse instante senti uma alegria estúpida. senti-me talvez, importante ou reconhecida.
e logo depois pus-me a pensar: "rapariga, tu não conheces 300 pessoas". ainda que conhecesse, não teria coragem para andar assim a publicitar-me. isso parece um bocado infantil como quando éramos novos e a nossa peça saía no jornal da escola. tínhamos de vender o jornal a toda a família que se mostrava muito interessada. ou parece que estamos a brincar às pessoas importantes. para além de ser ridículo: quando alguém que conheço me oferece um cartão só dá vontade de dizer "deixa-te de parvoíces! eu conheço-te." bem sei que para quem me lê isto pode parecer falsa modéstia, mas honestamente, aquilo que eu faço, às vezes nem a mim interessa quanto mais aos outros. pois então "de modos que" não sei o que fazer a 298 cartões (dei um ao pai e outro à mãe!)
Quarta-feira, Março 20, 2013
- não vai mais vinho para essa mesa -
terapia de choque
[no psiquiatra]
- então que tem para me contar hoje?
- nada. não tem acontecido nada.
- que falta de imaginação! você que faz arte devia ter mais criatividade!
- eu não faço arte.
- porquê?
- porquê, porquê... sei lá porquê! Nem toda a gente tem de fazer arte. E eu acho que não tenho nada a acrescentar ao mundo da arte, não tenho nada a dizer. O Sr. também não faz arte!
- Quem lhe disse?
- Ah, então também faço! Sendo que fazer arte não implica um pincel e uma tela, também faço arte!
- Agora já não vale!
- Quem diz? Faço arte, ou qualquer coisa parecida quando escrevo no meu blog.
- Ah pois é... o seu blog. Já não vou lá há algum tempo. O seu blog é muito melhor que você!
Segunda-feira, Março 18, 2013
Sábado, Março 16, 2013
- o carteiro -
foi você que pediu?
caro antónio: já me tinha esquecido disso. ora nem de propósito hoje falou-se de magritte e de um pintor português de seu nome eduardo luiz que faz uma coisa que, vista pode dever muito ao bom gosto (falo por mim, há primeira vista detestei aquilo), mas que estudada, explicada... tem que se lhe diga. não sei muito sobre o pintor: sei que se interessa por vários assuntos, comme il fault. mas é, segundo o pouco que sei, a partir desses gostos distintos que ele elabora obra; ou seja, faz uma leitura independente das áreas pelas quais se interessa e forma, através de uma linguagem que é clássica (tem as gradações, as velaturas, as sombras...), um novo texto, um novo discurso. e vem isto a propósito e no seguimento de magritte porque neste quadro "c'est un oeuf", o autor trabalhou no mesmo sentido de magritte.

Eduardo Luiz
C'est un oeuf
1986
ao lermos o título da obra lembramo-nos de magritte. mas enquanto magritte diz "ceci n'est pas une pipe"; ou seja, diz que a imagem não é a realidade, eduardo luiz diz que a imagem é a realidade. mas a imagem que ele apresenta, e que é de um ovo, só é inteiramente compreendida se estivermos na posse do código, da chave que deslinda o signo, já que a sua pintura é de signos. é que só quem sabe ler francês e percebe numeração romana (um ocidental, provavelmente) - e por isso sabe ler o título do quadro (isto é um ovo) - pode ler a inscrição abaixo do ovo: VII.I.IX. Ou seja, lida a numeração romana em francês obtemos uma expressão homófona para c'est un oeuf. (seria então sept.un.neuf). E as risquinhas? ora uma vez inquirido, o autor disse que ao observar a ginástica ocidental percebeu que o uso das fitas era expressão de virtuosismo, enquanto que o uso das mesmas fitas (ou semelhantes) no ballet oriental era signo. o que ele faz é misturar o que é decoração com o que é interpretação.
Sexta-feira, Março 15, 2013
- o carteiro -
big in...
o Big in Japan dos Alphaville mete-me medo. é um bocado tétrico, principalmente com o rosto do vocalista. mas não posso dizer que detesto. é catchy. eles cantavam isto não sei se por uma questão de estética ou porque já eram tão big in nova iorque que o passo lógico seria ser big in japan. ou se calhar sou eu que acho que ser big in nova iorque é mais big do que ser no japão. esta expressão era também utilizada por um amigo que me dizia muitas vezes - quer dizer, algumas vezes - que queria ser big in japan. eu também quero, ou quis, nem sei bem. cheguei a uma idade - já cheguei há algum tempo, mas coincidências temporais fizeram-me sentir isso agora - que os amigos quando me encontram esperam sempre qualquer coisa. é a idade de dizermos o quão bem sucedidos somos. tento encontrar uma forma de explicar aquilo que faço e explicar que aquilo que faço, faço porque gosto, mas que não sou big in nada porque aquilo que faço não se vende, não se come, não serve para nada. na maior parte dos dias quando me levanto pergunto: "porque é que vais para lá aturar aqueles pedantes a citar Wittgenstein? Tu nem sabes o que é que ele fez!". não me levem a mal: sei que tenho muita sorte em fazer aquilo que gosto, mas pergunto-me onde é que uma coisa que não serve para nada, me leva. porque eu posso saber os nomes dos quadros todos e fazer mil associações entre as diferentes áreas artísticas (que é o que gosto de fazer, é o que sei que faço bem e quando faço, até fico bonita!), mas nunca vou poder ser bem sucedida aos olhos dos outros, nem colocar isso na panela para comer. e eu que nem como muito...
Sábado, Março 09, 2013
- o carteiro -
isto também podia ser um "antes e depois". ora bem... o que é que eu vos trago?... hoje trago literatura. só para dar um ar de inteligente. e trago dois livros de que gosto muito e que vocês também deviam gostar. um deles (o "antes") é do Flaubert: Madame Bovary que é de facto um monumento. E o filme do Claude Chabrol é muito bonito, muito bem apanhado: o baile, a cena em que ela morre, a parte em que corre pelo jardim, a forma como os figurinos mostram o estado em que ela se encontra... é muito bom. Há uma parte no livro em que o narrador descreve um relógio da seguinte forma:
..."e na estreita consola da lareira resplandecia um relógio com uma cabeça de Hipócrates, entre dois castiçais de casquinha, com globos de forma oval." (FLAUBERT, Gustave - Madame Bovary. Amadora: Ediclube, 1995, pág. 34)
mais à frente:
"De que tinham falado, enquanto ele se aquecera em chaminés de largo lintel, entre jarras de flores e relógios Pompadour?" (IDEM, ibidem, pág. 60)
O primeiro relógio é da casa de Carlos e Ema. O segundo é o que ela imagina que o seu amante está a ver enquanto ela naquela terriola espera que ele venha e que a leve dali. No fundo, como a Luísa d' "O Primo Basílio" de Eça.
Mas eis que surge Camilo, que é para mim um dos símbolos do romantismo português, ainda que Camilo não seja, não tenha sido exclusivamente romântico, já que escreveu alguns romances realistas no fim da sua vida. Os romances de Camilo e os contos são, como já deu para perceber, muito breves. Tão breves que não conseguimos aquela empatia com as personagens como sentimos com as do Eça. Isto acontecia porque Camilo preferia contar as suas histórias, assim a modos que in media res; ou seja, quando a ação já ia a meio. E isto acontecia em parte devido a uma certa estratégia do autor. É que ele foi dos primeiros autores a viver da escrita. Aquilo que ele produz é para ser consumido logo: é para o burguês que lê o jornal todos os dias porque se quer manter informado acerca daquilo que se passa no mundo, e para a burguesa que lê os jornais do marido e que através deles aumenta a sua parca alfabetização para depois proceder à alfabetização dos filhos em casa. É que enquanto a mulher nobre apenas os paria, a mulher burguesa também os educava. Por isso Camilo não tinha mãos a medir. Mas nos últimos anos de vida Camilo aproxima-se do Realismo que estava na moda. Para ele foi de facto um desafio. Na dedicatória de um destes livros, "Eusébio Macário", Camilo diz que escreve um romance com "todos os tiques do estilo realista". E ao fazê-lo, neste romance, ele vai mesmo buscar determinados elementos e hiperboliza-os. Assim, o "Eusébio Macário" começa com o exagero de um recurso dos realistas - a descrição . Trata-se de uma descrição de um relógio que vai ser uma paródia à descrição dos dois relógios da Madame Bovary. Então cá vai:
"Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde da cisterna. Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vestida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira, crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças. Cada olho era maior que a boca, de um vermelho de ginja. Ela tinha a mão esquerda escorrida no regaço, com os dedos engelhados e aduncos como um pé de perua morta; o braço direito estava no ar, hirto, com um ramalho de flores que parecia uma vassoura de hidrângeas. Este relógio badalara três horas, que soaram ríspidas como as pancadas vibrantes, cavas, das caldeiras da Hécate de Shakespeare." (BRANCO, Camilo Castelo - Eusébio Macário. [s.l.]: Ulisseia, s.d., pág. 43)
Durmam bem e não façam xixi na cama que o tempo não está para secar.
Sábado, Fevereiro 23, 2013
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2013
Cafarnaum
um dia, os meus pais convidaram um casal amigo, casal um pouco mortiço, muito religioso, para irem todos ver o Carnaval a uma dessas cidades que o festejam. Entre desfiles e brincadeiras, passaram por uma roulote com um grande neon em forma de hamburguer. Segundo eles, e estou a usar as palavras ditas aquilo era "a coisa mais linda" do Carnaval.
Quando penso no Cacilheiro da Joana, vêm-me à boca estas palavras: que coisa "mai" linda!. É a coisa "mai" linda que Portugal tem a mostrar acerca da sua arte. A sua arte, a arte portuguesa, representada por Joana Vasconcelos é então uma pequena e flutuante Cafarnaum, mas um imenso Xanadu da própria, da Secretaria de Estado da Cultura e de alguns convidados que militam. Desta vez a vossa - porque minha não é - interventiva artista, qual Joana "Darque" (porque embora tenha nascido em França, é com as nossas linhas que (se) cose), não "Christou" o barco, thank God. Esse barco, como sabem, é um cacilheiro. Não é um rabelo, não é um moliceiro... é um cacilheiro; ou seja, bem representativo de um Portugal que geograficamente se situa ali para Lisboa, já que o resto é paisagem. O barco será revestido com um painel de azulejos que mostra Lisboa vista do rio, antes do terramoto de 1755, que como se sabe, era a única cidade que havia e houve sempre em Portugal. Aliás, como a Joana também deve saber, a técnica do azulejo que marcou o nosso Barroco em parte porque era um material barato, acessível, ficou parada no século XVIII e por isso não há artistas mais recentes a pintar azulejo, como por exemplo o Luís Filipe Abreu que pintou os painéis do metro do Saldanha. Nem há outras cores. Nem há outras fábricas para produzir os azulejos, como a cerâmica de Valadares, por exemplo, que entrou há pouco em insolvência. Isso sim, isso seria promover, pelo menos, a economia nacional. No interior do cacilheiro haverá mais uma instalação tricotada que representa um útero ou um espaço uterino, pois como é de conhecimento de todos, só há úteros em Portugal e os nossos produzem prodígios com dois olhos. Quem também vai lá estar, é a Vida Portuguesa (caramba, era preciso serem assim tão literais?), a vender sabonetes e coisas lindas, que os turistas gostam, é verdade. Mas isto não é uma feira do fumeiro. Nem é uma excursão de japoneses largados na Praça da Figueira. É uma Bienal, meninas; menina Joana e menina Catarina. Uma bienal num local em perigo de desaparecer, graças à ondulação provocada pelos grandes barcos.
Durante muito tempo Portugal desejou um local de exposição melhor. Como aquelas sub-lebridades que vão a uma festa e fazem de tudo para se aproximarem do pitch, também o cacilheiro vai, como quem não quer a coisa, querendo, instalar-se na zona nobre, local onde nunca conseguiu estar.
Ainda que digam que a beluga gosta de praticar o bota abaixismo por amargura ou inveja, não consigo guardar os meus encómios para o fim. O cacilheiro é já a coisa "mai" linda da arte portuguesa. (nem acho que seja amargurada, mas rigorosa: arte é uma coisa, cultura é outra)
Quarta-feira, Fevereiro 20, 2013
- não vai mais vinho para essa mesa -
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.
Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.
Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.
Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.
(Poema do fecho eclair, António Gedeão)
Sábado, Fevereiro 16, 2013
Terça-feira, Fevereiro 12, 2013
a propósito deste post a ana - a quem desde já agradeço - fez-me chegar isto







